Denerval Ferraro Junior

é jornalista, editor de variedades de Época São Paulo, crítico de cinema e gastronomia. Este ano, lançou o livro "10+ do Cinema". Quando tira o boné de repórter, gosta de baladas (muitas), cosmopolitans (muitos) e filmes de Almodóvar (todos). O resto, ele não conta.





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Primeiro foi Brad Pitt. Agora foi a vez de Steven Spielberg e sua mulher, Kate Capshaw, doar 100 mil dólares para a campanha contra a proposta de emenda 8, que tenta invalidar o casamento de gays e lésbicas na Califórnia. “Ao inscrever a discriminação na nossa constituição estradual, a Proposta 8 busca elimiar o direito de cada cidadão deste estado de casar, independentemente de sua orientação sexual. Esse tipo de discriminação não tem lugar na constituição da Califórnia, ou em nenhuma outra”, declarou o casal.

 

As pesquisas indicam que a proposta 8 tem perdido apoio popular, mas a campanha a favor dela arrecadou 17,8 milhões de dólares - mais do que os 12,4 milhões do pessoal a favor dos gays e contra a emenda discriminatória.

 

Enquando isso, no Brasil, o presidente Lula declarou-se totalmente a favor do casamento gay, na semana passada. “Acho que nós temos de parar com hipocrisia, porque a gente sabe que existe. Tem homem morando com homem, mulher morando com mulher e muitas vezes vivem bem, de forma extraordinária. Constroem uma vida juntos, trabalham juntos e por isso eu sou favorável”.

 

Concordo, presidente! Mas se o Congresso enrola gays e lésbicas há doze anos para aprovar a mera união civil entre pessoas do mesmo sexo, quanto tempo vai demorar para votar o casamento gay? Três décadas? Dois séculos?

 




adocao_gayA Câmara dos Deputados mostrou mais uma vez seu grau de atraso  ao aprovar, ontem, o projeto de lei que determina as novas regras para a adoção. Enquanto a nova lei mostra avanços, como maior agilidade nos processos de adoção (que deve passar de quase quatro anos para apenas um) ou o direito do adotado saber quem são seus pais biológicos, os deputados deram uma aula de discriminação ao retirar do projeto o artigo que regulamentava a adoção de crianças por casais do mesmo sexo.

Segundo o portal G1, a possibilidade de adoção por casais homossexuais foi retirada do texto para facilitar a aprovação. Antes, teria de ser regulamentada a união civil entre homens ou mulheres. Proposta, aliás, que  está parada doze anos na Câmara, como tudo que diz respeito a gays e lésbicas cai no limbo do Congresso e fica pro dia de São Nunca. Para os deputados, melhor ignorar o problema do que discuti-lo seriamente. Afinal, voto gay não vale nada, não é?

 

Miguel_martiniNa Folha on line, o deputado mineiro Miguel Martini (PHS) ilustrou bem os ânimos do Congresso em relação a isso tudo: ”A Casa nunca deliberou e espero que nunca venha a deliberar sobre o casamento homossexual.” O deputado, claro, é católico fervoroso, daqueles que pautam sua ação política baseados na religião pessoal. Boa parte dos projetos e emendas apresentados por Martini, por exemplo, são medidas para condenar o aborto e transformá-lo em crime hediondo - a mesma classificação de seqüestro e dos piores tipos de homicídio.

O bacana é a postura “cristã” de Miguel Martini. Achei uma entrevista antiga do deputado ao site católico Canção Nova. Saca a hipocrisia: “Justiça é dar ao outro o que ele tem por direito. Todos nós somos imagem e semelhança de Deus.” E os gays não, deputado? E as lésbicas? Continuam como cidadãos de segunda (ou terceira) categoria?

 

Alô, presidente Lula! Cadê o senhor agora segurando a bandeira do arco-íris?

 

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transLula lá! O presidente da República compareceu ontem à noite à 1ª Conferência Nacional GLBT, em Brasília, ao lado da primeira-dama, dona Marisa. Lula não fez por menos: colocou o boné de arco-íris, aplaudiu o discurso da travesti Roberta Benevutti, segurou a bandeira gay com sua mulher, gritou por um Brasil sem homofobia e pediu para Deus iluminar os gays. A novidade mais quente do evento, no entanto, veio de outra figura do governo, o ministro da Saúde José Gomes Temporão. Antes do discurso do presidente Lula, Temporão anunciou que, até o final de junho, assinará portaria que autoriza a cirurgia de troca de sexo pelos SUS (Sistema Único de Saúde). Hoje, a operação é feita no país apenas em regime particular e, em geral, é cara pra burro.

Muita calma, travas e trans. O ministro disse que, a princípio, serão poucos hospitais públicos autorizados a realizar a cirurgia, já que esta é um procedimento complexo e de longa duração. As operações serão feitas em hospitais ligados a universidades de grandes capitais, como Rio, São Paulo e Belo Horizonte (oi, pão de queijo!).

Sem dúvida, há muito para se fazer pela saúde do Brasil, mas não é por isso que o governo deve deixar de lado questões como essa, que envolvem uma dita minoria. Temporão merece parabéns pela iniciativa. Espero que o governo também facilite a vida da operada na hora de ela trocar seus documentos, adequados a sua nova realidade sexual.

Fonte: Uol e Mix Brasil